quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

VITRINE



Dezessete horas em ponto. Sorriu e caminhou pelo corredor do shopping. Adorava andar por aqueles corredores.

Olhou rapidamente pelas pessoas registrando tudo, até mesmo conseguiu, com uma e outra, imaginar o que estariam fazendo por ali, sentadas nos bancos frente aos restaurantes – cansadas das compras, segurando crianças inquietas, esperando alguém que iria demorar muito, funcionários que ficariam até tarde trabalhando.

Então viu a vitrine da loja.

- Linda! – pensou ao ver a calça de linho preta.

Era um dos seus objetos de desejo. Adorava linho e, aquela em especial, que compunha a vitrine, estava com uma echarpe de seda. A camisa não fazia seu estilo, mas a calça e a echarpe tinham a sua cara. Ficou em dúvida se entrava para ver o preço e até mesmo experimentar a peça, mas se o fizesse iria querer comprar e não tinha idéia de quanto tinha em conta corrente. Detestava essas situações em que tudo o que desejava estava à sua frente, mas não sabia se poderia arriscar um lance mais alto em sua conta bancária.

Sentiu alguém ao seu lado e mal olhou. Apenas percebeu que era um homem e achou estranho, já que era uma loja feminina.

- Gostou da vitrine? – perguntou ele com certa irritação na voz.

- Sim. – sem se importar em responder.

- E mal olhou para quem estava por perto, não?

- Claro que olhei! Não tinha ninguém por aqui. – levemente irritada.

- Você veio direto para cá! – mais irritado.

- Também não tinha ninguém de camisa vermelha. – percebendo de quem se tratava.

- Mas, pelo jeito, você pouco interessada estava se tivesse, ou não.

- Bom, pelo jeito, se eu fosse horrorosa, nem a camisa vermelha, e nem mesmo essa xadrez eu veria, não é?

- Ah! Eu pelo menos fiquei atento a você, só a você! Não fiquei vendo vitrines!

- Verdade? – irônica, bem irritada – Eu andei o corredor inteiro procurando uma camisa vermelha! Agora, se ela não estava aqui no horário marcado, o que eu faria? Me desesperar? Eu, ao menos não menti.

- Eu não menti. Eu estou aqui, não estou?

- Ah! Mas acho que você nem é quem estou esperando, já que espero alguém de camisa vermelha, e não xadrez.

- Sou eu, mesmo, deixa de gracinha! Sei o seu nome, onde trabalha, telefone...

- Não me diga... O catálogo telefônico também.

- E sei que estava esperando por Marcos e meu nome é Marcos. Posso lhe mostrar a identidade.

- Mesmo?  Quantos Marcos tem no mundo, não é?

- Aiii... Está bem, está bem! Desculpa! Eu fiquei com receio de... de... Caramba! Toda mulher que tem uma voz linda no telefone não quer dizer que... que... Você sabe do que estou falando!

- Não, não sei. E como já passou a hora, acho que vou embora. Ele, definitivamente não vem. Foi quase um prazer conhecer você... Marcos, não é?

- Você sabe que sou eu! Só está fazendo isso porque não gostou de mim, me acha feio...

- Feio? Nem por um momento me preocupei com isso. Aliás, seria bem fácil o rapaz de camisa vermelha me achar, mesmo sendo ele feio, chato, grosso, mal educado...

- Desculpa! Desculpa! Desculpa! Vamos começar de novo. Por favor...

Sabe-se lá porque, ela resolveu que seria uma boa oportunidade para testar sua paciência.

Lá no começou do corredor viu um rapaz correndo, esbaforido, com uma camiseta vermelha, sorrindo.

- Oi. – disse ele, quase sem fôlego – Obrigado por ter esperado.

- Eu sabia que chegaria. Nem tirou as etiquetas da camiseta – riu ela.

- Nem a camisa xadrez. Vamos tomar um sorvete?

- Claro.

Segundo ela, valeu a pena.

5 comentários:

Vítor Fernandes disse...

O que uma mulher é capaz por uma camisa vermelha!

Beijo, bom domingo.

Luzia Martin disse...

O que será que importava, a cor da camisa ou o conteúdo dela?...

Que mulher complicada para escolher homem!!! ;)

Mirian Martin disse...

VITOR e LUZIA No caso, o que a fez preferir o conteúdo com camisa vermelha, foi a chatice, grossura do conteúdo da camisa xadrez que, percebendo, tratou de colocar a vermelha e começar tudo de novo. ;)

Andre Martin disse...

Quanta irritação!...
Realmente, não ter o que gastar irrita qualquer um... Principalmente tendo um monte de coisas COM o que gastar, né?

Saber recomeçar é uma virtude!

Patricia disse...

Todos merecem uma segunda chance...