Dezessete horas em ponto. Sorriu e
caminhou pelo corredor do shopping. Adorava andar por aqueles corredores.
Olhou rapidamente pelas pessoas
registrando tudo, até mesmo conseguiu, com uma e outra, imaginar o que estariam
fazendo por ali, sentadas nos bancos frente aos restaurantes – cansadas das
compras, segurando crianças inquietas, esperando alguém que iria demorar muito,
funcionários que ficariam até tarde trabalhando.
Então viu a vitrine da loja.
- Linda! – pensou ao ver a calça de
linho preta.
Era um dos seus objetos de desejo.
Adorava linho e, aquela em especial, que compunha a vitrine, estava com uma
echarpe de seda. A camisa não fazia seu estilo, mas a calça e a echarpe tinham
a sua cara. Ficou em dúvida se entrava para ver o preço e até mesmo
experimentar a peça, mas se o fizesse iria querer comprar e não tinha idéia de
quanto tinha em conta corrente. Detestava essas situações em que tudo o que
desejava estava à sua frente, mas não sabia se poderia arriscar um lance mais
alto em sua conta bancária.
Sentiu alguém ao seu lado e mal
olhou. Apenas percebeu que era um homem e achou estranho, já que era uma loja
feminina.
- Gostou da vitrine? – perguntou ele
com certa irritação na voz.
- Sim. – sem se importar em
responder.
- E mal olhou para quem estava por
perto, não?
- Claro que olhei! Não tinha ninguém
por aqui. – levemente irritada.
- Você veio direto para cá! – mais irritado.
- Também não tinha ninguém de camisa
vermelha. – percebendo de quem se tratava.
- Mas, pelo jeito, você pouco
interessada estava se tivesse, ou não.
- Bom, pelo jeito, se eu fosse
horrorosa, nem a camisa vermelha, e nem mesmo essa xadrez eu veria, não é?
- Ah! Eu pelo menos fiquei atento a
você, só a você! Não fiquei vendo vitrines!
- Verdade? – irônica, bem irritada –
Eu andei o corredor inteiro procurando uma camisa vermelha! Agora, se ela não estava
aqui no horário marcado, o que eu faria? Me desesperar? Eu, ao menos não menti.
- Eu não menti. Eu estou aqui, não estou?
- Ah! Mas acho que você nem é quem
estou esperando, já que espero alguém de camisa vermelha, e não xadrez.
- Sou eu, mesmo, deixa de gracinha!
Sei o seu nome, onde trabalha, telefone...
- Não me diga... O catálogo
telefônico também.
- E sei que estava esperando por
Marcos e meu nome é Marcos. Posso lhe mostrar a identidade.
- Mesmo? Quantos Marcos tem no mundo, não é?
- Aiii... Está bem, está bem!
Desculpa! Eu fiquei com receio de... de... Caramba! Toda mulher que tem uma voz
linda no telefone não quer dizer que... que... Você sabe do que estou falando!
- Não, não sei. E como já passou a
hora, acho que vou embora. Ele, definitivamente não vem. Foi quase um prazer
conhecer você... Marcos, não é?
- Você sabe que sou eu! Só está
fazendo isso porque não gostou de mim, me acha feio...
- Feio? Nem por um momento me preocupei
com isso. Aliás, seria bem fácil o rapaz de camisa vermelha me achar, mesmo
sendo ele feio, chato, grosso, mal educado...
- Desculpa! Desculpa! Desculpa!
Vamos começar de novo. Por favor...
Sabe-se lá porque, ela resolveu que
seria uma boa oportunidade para testar sua paciência.
Lá no começou do corredor viu um
rapaz correndo, esbaforido, com uma camiseta vermelha, sorrindo.
- Oi. – disse ele, quase sem fôlego –
Obrigado por ter esperado.
- Eu sabia que chegaria. Nem tirou
as etiquetas da camiseta – riu ela.
- Nem a camisa xadrez. Vamos tomar
um sorvete?
- Claro.
Segundo ela, valeu a pena.

5 comentários:
O que uma mulher é capaz por uma camisa vermelha!
Beijo, bom domingo.
O que será que importava, a cor da camisa ou o conteúdo dela?...
Que mulher complicada para escolher homem!!! ;)
VITOR e LUZIA No caso, o que a fez preferir o conteúdo com camisa vermelha, foi a chatice, grossura do conteúdo da camisa xadrez que, percebendo, tratou de colocar a vermelha e começar tudo de novo. ;)
Quanta irritação!...
Realmente, não ter o que gastar irrita qualquer um... Principalmente tendo um monte de coisas COM o que gastar, né?
Saber recomeçar é uma virtude!
Todos merecem uma segunda chance...
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