A mocinha mal estaciona o carro, bem rente ao
meio fio.
- Mão na cabeça! Mão na cabeça! Sai
do carro devagarinho. Tira antes a chave da ignição. Com a mão esquerda! Com a
mão esquerda! – berrava o policial que surgira misteriosamente, sabe-se de lá
de onde.
- Mas...
- Mas, nada, marginal! Mão no capô!
Mão no capô!
- A minha avó...
- Cala a boca, marginal! – e leva um
tapa na orelha que ouve zunidos que lhe dá ânsia – A velhota cuidamos nós! Sua
cúmplice, é? Cumplicidade também é crime! Sai daí, velhota! Também com as mãos
para cima!
- Mas ela é... – outro tapa, mais
zunidos
- Eu é que falo marginal! Sabe o que
é marginal? Sabe? Vou explicar direitinho, caso não tenha reparado na coisa. Tá
vendo aquela plaquinha ali? Ali diz que é para deficiente físico. DEFICIENTE! Tu não é deficiente! Tá dirigindo um
carro sem qualquer adesivo que corresponda a isso. Tendeste? Marginal! Fora da lei! Na margem da sociedade! Tendeste? Tendeste?!
- Entendi, entendi... – baixinho –
mas...
- Mas , o que? Diz, agora!
- É que a minha avó é surda e
paraplégica. Ela tem consulta no médico aqui bem em frente. Está vendo?
- Não sou eu o deficiente! A
deficiente mental é você, sua meliante! Se fosse a sua avó que estivesse
dirigindo ela teria direito a esta vaga, mas é você, sua limitada mentalmente!
Você não pode!
- E a consulta?
- Eu não sou médico! Sou só
responsável por manter a ordem e tirar marginais como você fora de circulação,
ou enquadrar para entrar na linha, entendeu?
- Ela precisa da cadeira de rodas
para sair do carro... – sempre baixinho, com as mãos sobre a capota do carro.
Ele pega as chaves, que estão na mão
esquerda dela e abre o porta-malas.
- Isso é o que?! Arsenal de guerra?
- É uma cadeira de rodas!
- Calada! Olha como fala comigo! Não
sou seu pai para falar assim comigo! Abaixa esse tom! – sempre aos berros.
- Desculpa, policial... é que... é
só ... uma cadeira de rodas...
- Estou vendo que é uma cadeira de
rodas. Venha aqui, com as mãos para cima e monte essa geringonça para ver se
não tem nada escondido nela. Drogas nem é difícil, para quem estaciona em lugar
proibido. Usar velhinhas inocentes... Sei...
Sei lá se é inocente... É surda, mesmo?
- É. Ela é surda.
Ela monta a cadeira e leva a cadeira
até a velhinha que até aquele momento estava só assustada com a movimentação
estranha.
- Saia daí, velhota! – berrou o
policial. A senhora nem se mexe – Eu disse para sair! – mais alto e ela nem se
mexe.
- Eu disse que ela é surda. Surda
total.
- Tire logo essa velha daí, sua neta
sem coração! Vai deixar a velha morrer e colocar a culpa em mim?
- Mas...
- Calada! Nem um piuzinho a mais! –
ele mesmo coloca gentilmente a senhora na cadeira e em troca recebe um afago e
um sorriso da velhinha – Tá vendo?
Fazendo a coisa certa a gente consegue coisas que valem a pena, tá
entendendo, menina? Aprenda! E pare de estacionar em lugar proibido.
- Mas...
- Nem me agradeça pelo tempo que vou
deixar você parada aqui. Depois vou pensar se multo ou não.
- Mas...
- Circulando! Circulando!
- Gentil esse moço, não? – diz a
velhinha, enquanto a moça, tremendo, a leva à clínica.

4 comentários:
Que maravilha. Rindo logo pela manhã.Mas você exagerou no policial. Bem sei que há muito por aí que é demente, mas se não fosse exagerado assim não tinha graça. Adorei.
VITOR Tenho amigos policiais e ex-policiais - eles nem comentaram! :))) (Eu publiquei no Face também)
Mirian,
Pobre mocinha que se viu confrontada com um ignorante;
pobre policia tão básico nos seus saberes;
pobre e linda velhinha, tão sincera nas suas apreciações.
É isto o mundo: gente(s) que se complementam, para o bem e para o mal.
Abraço.
TERESA Ainda bem que o texto é um exagero nos estereótipos, mas que tem gente assim, se tem!
Postar um comentário