A tela branca, preparada, estava à
sua frente sobre o cavalete.
Tela enorme, do tamanho do seu
querer, dos seus desejos, da sua imaginação. Mas as menores ainda estavam sobre
a mesa, estridentes, gritando cores.
Olhou para a parede, ainda lavanda e
sentiu o perfume que sempre imaginou que
dali se desprenderia se ali fosse
um campo de lavanda.
Olhou para os tubos de tinta e
colocou um pouco de amarelo e vermelho na paleta. Por que não?
Mas suas mãos, como que pensando
diferente, misturou um pouco o vermelho, o amarelo e o branco... e mais branco.
- Pêssego. – disse ela sorrindo.
A época de pêssegos estava chegando.
Amava pêssegos. Sua pele, sua textura, sua cor, sua polpa que escorria pelo
queixo, seu doce que às vezes fugia para
o amargo no final. Até mesmo a sua semente, quase uma noz, texturizada,
agressiva, tão diferente dele mesmo, o fazia especial.
O pincel fez o seu trajeto fácil,
delicado, um passeio na neve, quase um pêssego escorregando pela montanha de
gelo. Escorregando, escorregando, um próprio gelo, como uma bola de neve em
traços e filetes de pêssego que escorriam por entre vãos desavisados.
Ao longe, bem ao longe, a floresta
em verde que esmaecia, porque também ali o pêssego se infiltrara, na sua
doçura, na sua pele aveludada, na sua textura que não sabe se fica em fios ou
em pedaços.
No horizonte... Ah, esses
horizontes!...
Lá explodia a lavanda que, mesmo
acuada, ainda era lavanda pura, em traços puros de lavanda, cheirando a
lavanda, mas sabendo que agora só havia o perfume do pêssego, forte,
penetrante, doce, amargo, com a semente avisando que nem tudo pode ser doce e
suave. E foi ali, bem no meio da tela
que, com carinho, fez a semente, naquela cor estranha, aquela noz diferente,
aquela coisa que fugia a tudo.
Olhou tudo aquilo e olhou sua
parede.
Pintou sua própria mão da cor
pêssego que havia preparado e a imprimiu contra a parede lavanda. Uma, duas,
três, quatro vezes. E sorriu.
Foi quando ele chegou.
- O que você fez com a parede?!
- Estou testando cores para ela.
- Quer essa cor esquisita? –
colocando os óculos mais para a ponta do nariz.
- Não sei. Amanhã eu vejo. Vou
dormir com ela aí para ver como é que fica – num ar sonhador, meio travesso.
- Hum. Vejo que trabalhou bem hoje!
– examinando a tela nova, novamente diferente do que ele poderia imaginar.
- Gostou? – sorrindo provocativa.
- Interessante este. – sorrindo,
agarrando-se aos óculos – Quase se vê uma história aqui.
- Não é?
Ele a olha intrigado. Mais uma vez
ela mudara.
- Vou limpar as mãos. Vamos tomar um
café? Com conhaque!
- Certo. Com conhaque! – riu ele,
aliviado. Era ela mesma, mesmo não sendo sempre.

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