- Paixão! Paixão! Paixão! – dizia
ela, girando em torno de si mesma, braços
estendidos, como naqueles filmes de Hollywood em que a mocinha faz isso numa
sala enorme e linda.
A grande diferença era que ela fazia
num cubículo da cor lavanda, quase esbarrando no rapaz que estava por ali.
Entretanto, o olhar sonhador, que acredita em muitas coisas, até mesmo num
futuro feliz, ali também estava.
As telas pintadas viam-se por toda parte,
enroladas atrás do sofá, debaixo dele, enchendo um cachepot quase tombado de
lado, empilhadas atrás de uma cadeira que fazia vez de aparador. Na parede, só
dois – era o que cabia ali.
- Isso quer dizer que a paixão
acabou? – perguntou ele, quase cinicamente, apontando para as duas telas
pequenas que estavam sobre a mesa.
- Está dizendo isso porque estão num
estilo diferente das outras?
- Diferente? Só diferente? – disse
ele arrumando os óculos, como se fosse um tique nervoso – Nem parece você!
Muita cor, muita explosão, muito...
muita coisa, sei lá! Não é você, simplesmente isso!
- Mas, claro que sou eu! – pegando
as telas, timidamente, olhando com tristeza para sua criação – Tudo bem que
seja diferente. Uma fase diferente minha, mas ainda sou eu.
- Você não entende... – ajeitando
novamente os óculos – É a sua fase anterior que é apaixonante. Tocante.
Sensível. Que não agride, mas nos toca profundamente. Isso que tem vendido você
até agora. Mas, isso... Isso é... Isso é como se você colocasse uma máscara,
ou... tirasse! Nem sei!
- Está dizendo que quero agredir as
pessoas? Eu?
- Não sei. Quer dizer, é o que
parece. Essas telas nada tem a ver com você. Nunca vai conseguir colocar uma
coisa dessas no mercado. Só se for no paralelo. E ainda assim vai ter gente que
vai duvidar que seja trabalho seu.
- E as outras? – apontando para as
telas espalhadas pela saleta – Por que não vendem? Por que estão encalhadas
aqui?
- Você tem que ver, também, que não
passamos por uma fase em que se investe tanto em arte assim. Fora isso, tem
muitos artistas de renome que estão expondo ultimamente...
- Isso não é desculpa! – explodindo,
finalmente – Você quer que eu mude, mas você
não faz nada para colocar as obras em exposição! Nem mesmo em feira
ambulante! O que é importante para você é que eu seja sempre igual! Sempre
igual e sempre igual! Não quero mais isso! Quero algo novo!
- Algo apaixonante, é isso? –
ajeitando novamente os óculos, sentindo-se, realmente, incomodado.
- É. É isso.
- Isso quer dizer que... essas
coisas berrantes tem algo a ver com... nova paixão?
- Talvez.
- Será que é uma coisa tão diferente
assim, para você mudar tudo, até mesmo a sua postura, e agir comigo como se eu
fosse seu inimigo? Sempre quis o melhor para você, por isso estou
aconselhando...
- Mentira! Mentira! Você quer o
melhor para você! O que convém para você! E eu quero mudar. Mudar o cabelo, a
cor do cabelo, as minhas roupas, a parede da casa, a cor das minhas telas,
tudo! Tudo!
- Acho que eu vou sair um pouco para
você se acalmar. Acho que fui muito precipitado, talvez até inconveniente... E
daí a gente se fala novamente, com mais calma.
O olhar dela era frio, tão diferente
da paixão que queimava quando começaram a conversa. Ele sabia que tocara no que
não devia e que muita coisa mudaria dali em diante. Talvez para melhor. Mas
isso... Isso, só o tempo diria. Era uma frase clichê que ele odiava, mas no
caso, era mais que verdade. Nunca sabia o que viria dela, a não ser com o
decorrer do tempo.

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