sexta-feira, 18 de novembro de 2011

DA COR LAVANDA



- Paixão! Paixão! Paixão! – dizia ela, girando em torno  de si mesma, braços estendidos, como naqueles filmes de Hollywood em que a mocinha faz isso numa sala enorme e linda.
A grande diferença era que ela fazia num cubículo da cor lavanda, quase esbarrando no rapaz que estava por ali. Entretanto, o olhar sonhador, que acredita em muitas coisas, até mesmo num futuro feliz, ali também estava.
As telas pintadas viam-se por toda parte, enroladas atrás do sofá, debaixo dele, enchendo um cachepot quase tombado de lado, empilhadas atrás de uma cadeira que fazia vez de aparador. Na parede, só dois – era o que cabia ali.
- Isso quer dizer que a paixão acabou? – perguntou ele, quase cinicamente, apontando para as duas telas pequenas que estavam sobre a mesa.
- Está dizendo isso porque estão num estilo diferente das outras?
- Diferente? Só diferente? – disse ele arrumando os óculos, como se fosse um tique nervoso – Nem parece você! Muita cor, muita explosão, muito...  muita coisa, sei lá! Não é você, simplesmente isso!
- Mas, claro que sou eu! – pegando as telas, timidamente, olhando com tristeza para sua criação – Tudo bem que seja diferente. Uma fase diferente minha, mas ainda sou eu.
- Você não entende... – ajeitando novamente os óculos – É a sua fase anterior que é apaixonante. Tocante. Sensível. Que não agride, mas nos toca profundamente. Isso que tem vendido você até agora. Mas, isso... Isso é... Isso é como se você colocasse uma máscara, ou... tirasse! Nem sei!
- Está dizendo que quero agredir as pessoas? Eu?
- Não sei. Quer dizer, é o que parece. Essas telas nada tem a ver com você. Nunca vai conseguir colocar uma coisa dessas no mercado. Só se for no paralelo. E ainda assim vai ter gente que vai duvidar que seja trabalho seu.
- E as outras? – apontando para as telas espalhadas pela saleta – Por que não vendem? Por que estão encalhadas aqui?
- Você tem que ver, também, que não passamos por uma fase em que se investe tanto em arte assim. Fora isso, tem muitos artistas de renome que estão expondo ultimamente...
- Isso não é desculpa! – explodindo, finalmente – Você quer que eu mude, mas você  não faz nada para colocar as obras em exposição! Nem mesmo em feira ambulante! O que é importante para você é que eu seja sempre igual! Sempre igual e sempre igual! Não quero mais isso! Quero algo novo!
- Algo apaixonante, é isso? – ajeitando novamente os óculos, sentindo-se, realmente, incomodado.
- É. É isso.
- Isso quer dizer que... essas coisas berrantes tem algo a ver com... nova paixão?
- Talvez.
- Será que é uma coisa tão diferente assim, para você mudar tudo, até mesmo a sua postura, e agir comigo como se eu fosse seu inimigo? Sempre quis o melhor para você, por isso estou aconselhando...
- Mentira! Mentira! Você quer o melhor para você! O que convém para você! E eu quero mudar. Mudar o cabelo, a cor do cabelo, as minhas roupas, a parede da casa, a cor das minhas telas, tudo! Tudo!
- Acho que eu vou sair um pouco para você se acalmar. Acho que fui muito precipitado, talvez até inconveniente... E daí a gente se fala novamente, com mais calma.
O olhar dela era frio, tão diferente da paixão que queimava quando começaram a conversa. Ele sabia que tocara no que não devia e que muita coisa mudaria dali em diante. Talvez para melhor. Mas isso... Isso, só o tempo diria. Era uma frase clichê que ele odiava, mas no caso, era mais que verdade. Nunca sabia o que viria dela, a não ser com o decorrer do tempo.

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