Gostava de vasos de flores. Tinha-os
espalhados pela casa, enfeitando janelas, cantoneiras, qualquer cantinho que
parecesse meio esquecido de todos merecia um.
Mas fora, no beiral das janelas, do
lado de fora, os vasos eram outros.
Gostava também de chás. Assim, nos
vasos de fora, plantara erva cidreira, hortelã, manjericão, camomila e outras
ervas que também utilizava na culinária.
Era meio esquisito olhar, do lado de
fora, a sua janela. Eram vasos de vários tamanhos, formas, com o que parecia mais mato do que plantas
bem cuidadas e com carinho.
Às
vezes pensava nisso, nessa contradição. Por fora, o seu apartamento
parecia uma coisa meio agreste, meio largado ao “Deus dará”. No entanto, por
dentro, apesar da bagunça das telas espalhadas por todos os cantos, havia um
cuidado especial com a aparência, uma delicadeza na escolha das cores, dos
vasos, das plantas, nos perfumes que se espalhava por ele todo.
Mesmo agora, enquanto tomava o seu
chá de hortelã, pensava nisso, na casa perfumada por dentro por aquilo que vinha de fora.
Tinha certas coisas que pensava e que parecia que não tinha muito sentido, ou
sequer valesse a pena pensar. Mas eram essas coisas que às vezes lhe tomava
tempo e levava a sua alma para outros caminhos, que a inspirava, que fazia com
que o seu mundo fosse melhor.
Fechou os olhos depois de mais um
gole de seu chá e pensou que o mundo poderia ser todo verde. Mas se fosse todo
verde as outras cores seriam tão sem graça. Porque o verde é tão dominante, tão
profundamente dominante, que invade qualquer cor pura.
Por outro lado, não gostava de cores
puras. Tanto quanto o verde, as cores puras são marcantes, como o vermelho.
Cores primárias... Não sabia por que, mas não gostava desse nome, apesar de
justo. Gostava de chamá-las “cores
puras”. Mesmo assim, cores puras eram agressivas.
E assim ficou, por um bom tempo,
pensando em pureza e agressividade. Em tonalidades e mansidão. Em miscigenação
e parceria. Coisas que tinha muito a ver com cores, mas tinha muito a ver com a
vida. Sua própria vida.
Terminou o chá, pegou a sua maleta
de tintas, sua paleta, as cores verde e branca e fez o seu primeiro verde. A
cada tom de verde pintava a ponta de um dos dedos da mão espalmada de pêssego
de sua parede lavanda. Numa delas pintou com arte a palma, menos os dedos. Por fim, pintou a sua mão de verde puro e
espalmou várias vezes, uma , duas, cinco vezes na parede lavanda.
- Essa parede está ficando linda. –
disse ele quando saiu do quarto, falando isso mais em tom de crítica do que uma
afirmação positiva – Vai deixar até amanhã, também, para ver se decide algo?
- Talvez. – disse ela, sorrindo –
Quer chá?
- Do que?
- Hortelã.
- Prefiro café. Tem?
- É de manhã. Quer que eu faça?
- Não. Deixa. Acho que vi um suco na
geladeira.
- Tem ainda.
- Você pretende espalmar a sala
inteira até decidir a cor?- indo até a cozinha.
- Qual você prefere? Pêssego ou
hortelã?
- Do que você está falando? Fruta,
chá, perfume? O que é?
- Você prefere uma pessoa-pêssego,
ou uma pessoa-hortelã?
Ele sorri para ela, mesmo bebendo o
suco.
- Sabe, eu prefiro você, querida,
meu chocolate com café. Sempre doce e estimulante.
Os olhos dela sorriam. Iria ser uma
boa tarde.
Foto tirada daqui, um site muito legal e que que fala até sobre o simbolismo da hortelã. Vale a pena.

1 comentários:
Gosto de chá de hortelã. E hesito menos :)
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