terça-feira, 22 de novembro de 2011

DA COR HORTELÃ




Gostava de vasos de flores. Tinha-os espalhados pela casa, enfeitando janelas, cantoneiras, qualquer cantinho que parecesse meio esquecido de todos merecia um.
Mas fora, no beiral das janelas, do lado de fora, os vasos eram outros.
Gostava também de chás. Assim, nos vasos de fora, plantara erva cidreira, hortelã, manjericão, camomila e outras ervas que também utilizava na culinária.
Era meio esquisito olhar, do lado de fora, a sua janela. Eram vasos de vários tamanhos, formas,  com o que parecia mais mato do que plantas bem cuidadas e com carinho.
Às  vezes pensava nisso, nessa contradição. Por fora, o seu apartamento parecia uma coisa meio agreste, meio largado ao “Deus dará”. No entanto, por dentro, apesar da bagunça das telas espalhadas por todos os cantos, havia um cuidado especial com a aparência, uma delicadeza na escolha das cores, dos vasos, das plantas, nos perfumes que se espalhava por ele todo.
Mesmo agora, enquanto tomava o seu chá de hortelã, pensava nisso, na casa perfumada  por dentro por aquilo que vinha de fora. Tinha certas coisas que pensava e que parecia que não tinha muito sentido, ou sequer valesse a pena pensar. Mas eram essas coisas que às vezes lhe tomava tempo e levava a sua alma para outros caminhos, que a inspirava, que fazia com que o seu mundo fosse melhor.
Fechou os olhos depois de mais um gole de seu chá e pensou que o mundo poderia ser todo verde. Mas se fosse todo verde as outras cores seriam tão sem graça. Porque o verde é tão dominante, tão profundamente dominante, que invade qualquer cor pura.
Por outro lado, não gostava de cores puras. Tanto quanto o verde, as cores puras são marcantes, como o vermelho. Cores primárias... Não sabia por que, mas não gostava desse nome, apesar de justo. Gostava de chamá-las  “cores puras”. Mesmo assim, cores puras eram agressivas.
E assim ficou, por um bom tempo, pensando em pureza e agressividade. Em tonalidades e mansidão. Em miscigenação e parceria. Coisas que tinha muito a ver com cores, mas tinha muito a ver com a vida. Sua própria vida.
Terminou o chá, pegou a sua maleta de tintas, sua paleta, as cores verde e branca e fez o seu primeiro verde. A cada tom de verde pintava a ponta de um dos dedos da mão espalmada de pêssego de sua parede lavanda. Numa delas pintou com arte a palma, menos os dedos.  Por fim, pintou a sua mão de verde puro e espalmou várias vezes, uma , duas, cinco vezes na parede lavanda.
- Essa parede está ficando linda. – disse ele quando saiu do quarto, falando isso mais em tom de crítica do que uma afirmação positiva – Vai deixar até amanhã, também, para ver se decide algo?
- Talvez. – disse ela, sorrindo – Quer chá?
- Do que?
- Hortelã.
- Prefiro café. Tem?
- É de manhã. Quer que eu faça?
- Não. Deixa. Acho que vi um suco na geladeira.
- Tem ainda.
- Você pretende espalmar a sala inteira até decidir a cor?- indo até a cozinha.
- Qual você prefere? Pêssego ou hortelã?
- Do que você está falando? Fruta, chá, perfume? O que é?
- Você prefere uma pessoa-pêssego, ou uma pessoa-hortelã?
Ele sorri para ela, mesmo bebendo o suco.
- Sabe, eu prefiro você, querida, meu chocolate com café. Sempre doce e estimulante.
Os olhos dela sorriam. Iria ser uma boa tarde.

Foto tirada daqui, um site muito legal e que que fala até sobre o simbolismo da hortelã. Vale a pena.

1 comentários:

Vítor Fernandes disse...

Gosto de chá de hortelã. E hesito menos :)