terça-feira, 29 de novembro de 2011

DA COR ESPERANÇA



A tela-toalha tinha sido a primeira a ser vendida, para surpresa de todos, inclusive para a dona da galeria, mesmo porque, o preço estava nas alturas, exatamente porque apostavam que ninguém iria comprar. Trataram de valorizá-la com o preço alto e deu certo.
As outras telas foram saindo no decorrer da semana. Tudo tão rápido que ninguém acreditou. Era bom demais para ser verdade.
- De onde apareceu tanta gente interessada nos meus trabalhos? – perguntou ela, sem acreditar que só restavam cinco telas.
- Eu paguei uma matéria no jornal, mas acho que só isso não faria toda essa movimentação. – nem ele acreditava – Acho que tem muito de indicação, sei lá. Fulano comprou, eu também quero. Sabe como é? Além da galeria, claro.
- Vai ficar muito caro pagar a galeria?
- Bom, considerando que foi vendido quase tudo nesta semana e nem vamos precisar da outra, acho que até ficou barato. É só uma porcentagem do que vendemos. Alta, claro, mas mesmo assim a venda foi extraordinária!
-Legal! – os olhos brilhavam imaginando ver suas telas em muitas paredes, um pedaço dela mesma em muitas casas diferentes, quase como um olhar seu iluminando uma sala triste.
- Você sabe o que isso significa, não é?
- O que? – intrigada, sem conseguir imaginar coisas ruins naquele momento.
- Que agora, mais do que nunca, você não pode parar de produzir.
Ela sorriu, porque isso ela nunca conseguira parar, mesmo.
- Agora me diz – continuou ele – por que pintou a parede de branco?
- Porque cada centímetro dela eu vou colocar as minhas telas, antes que sejam vendidas.
- Faz sentido. – riu ele ao mesmo tempo que ajeitava os óculos.
- Se der tempo – interrompeu a galerista que ouviu parte da conversa – Acabei de fechar as outras telas com uma loja. Aliás, ela está interessada em todos os seus trabalhos.  Gostou muito da qualidade, do dinamismo das cores, do estilo envolvente, mas arrojado. Palavras dela!
- Isso existe? – ela perguntou.
- Bom – respondeu ela –, ela acompanhou a venda dos seus trabalhos e ficou impressionada. São , realmente, muito bons. Para ela é vantajoso, evidente. Fora isso, ela tem outros contatos fora da cidade e do Estado. Ela pode colocá-los em qualquer lugar rapidamente e fazer a sua cotação subir cada vez mais. Além do seu nome ser mais exposto, o que é boa coisa.
De repente lembrou-se da parede branca. Todas as cores. Na verdade, um imenso vazio.
Resolveu que as primeiras telas, as duas primeiras, seriam para pendurar naquelas paredes imensamente brancas, para lembrá-la que o branco não era sinônimo nem de paz, nem a junção de todas as cores, nem de vazio, mas de muito trabalho e de esperança. Era uma nova fase.
Olhou para ele que, agitado que estava, já tinha até tirado os óculos. Tudo era muito bom para ser verdade.
Tinham pulado para outro nível, agora os ciclos iriam ser outros, diferentes do que estavam tão acostumados.
Naquela noite se amaram como nunca.
Diferente dos finais dos contos de fada, desta vez seriam felizes como nunca!


Fim

1 comentários:

Luis Bento disse...

Já tinha saudades desta escrita solta e enternecedora. Falha minha que tenho andado bastante ausente...
Agrada-me a simplicidade da linguagem e o encadeamento das ideias terminando num final terno e doce.