segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CARISMÁTICO


Assim que ele entrou no recinto era como se tudo tivesse outro tipo de brilho. Misteriosamente, vinha dele.
Os olhos de todos buscavam os dele, como se houvesse algum tipo de benefício se conseguissem esse tipo de contato.
Sim, ele era uma pessoa carismática. Muito carismática. Daquelas que dificilmente se percebe um defeito, a não de que naquele dia não tenha dado atenção justamente a uma determinada pessoa. Mas, era uma coisa difícil, como se, além de carismático, ainda fosse daquelas pessoas que conseguiam ter tempo e atenção para todas as pessoas – um olhar significativo, um sorriso cúmplice, um aperto de mão firme e confiante, um abraço afetuoso, uma risada gostosa de alguma coisa dita, uma pergunta feita em tom pessoal, o jeito de abaixar a cabeça para ouvir melhor a pessoa e com a máxima atenção.
Mas ela também era nova naquele espaço. Tudo via. Tudo analisava. Percebia que estava diante de alguém que ultrapassava a mediocridade, que estava num patamar em que via as pessoas de outro nível e as enxergava por outro prisma.
Foi então que ele soltou a frase para a mocinha que por ali passava, talvez uma conhecida mais íntima.
- Meu bem, faz um prato para mim, por favor? – e o sorriso cativante, a voz suave, quase pedindo.
Mas foi justamente o “quase” que chamou a sua atenção.
Ele não estava pedindo.
O prato veio rapidamente, junto com outros sorrisos, agradecimentos sorridentes e tudo seguiu com uma normalidade estonteante, dentro de uma bolha surreal. Tudo se modificava perto dele. A alegria e o prazer em servi-lo e vê-lo feliz era quase uma bola de neve.
Então, alguém a chamou e ela deixou de observá-lo.
- Trouxe isso para você.
- O que é isso?
- Disseram que é uma torta salgada, mas está com uma aparência tão estranha que pode até estar boa, mas acho melhor comer de olhos fechados.
As duas riram juntas. Era sua melhor amiga que a arrastara para aquela festa na qual não conhecia ninguém.
- Você viu como todo mundo fica quando ele chega? – perguntou a amiga, já com os olhos grudados nele.
- Quem é ele?
- O nome dele é Lúcio. Não sei exatamente o que ele faz, nem de quem é melhor amigo ou coisa assim. Só sei que, quando ele chega, parece que tudo dá uma parada e depois tudo começa a girar em torno dele.
- Eu vi.
- No começo até pensei que ele fizesse de propósito.
- O que? Parar a festa?
- Não! Ter esse jeito de chamar a atenção.
- Mas ele não faz nada!
- Pois é! Depois percebi isso. Ele não precisa fazer nada! Ele entra, dá um sorriso e todo mundo respira diferente. É quase irritante. Não fosse o fato...
- Qual?
- Ele é de-mais!! Menina, ele é um doce! Simpático, atencioso, super alto astral! Culto! Culto! Ele sabe conversar e não é só sobre futebol!
- Para. Isso já está parecendo aquele papo de “marido que toda mãe queria ter para sua filha”. É muito bom para ser verdade. O cara, evidentemente, tem um baita defeito e esconde isso debaixo dessa coisa toda. Diz logo. Qual o defeito?
- Defeito? Defeito?! O cara é perfeito! Perfeito!
- Tá, então vou dizer para você qual é o defeito que ninguém ainda viu.
- Você nem o conhece!
- Nem preciso. Eu vi.
- Viu o que?!
- Vi o defeito dele.
- E qual é?...
- Ele acha que o mundo tem que servi-lo. E consegue isso.
- Ai, que maluca! Claro que não! Acho que ele tiraria a camisa do corpo para dar para alguém se precisasse!
- Mas logo outro alguém daria outra para ele, instantaneamente.
O silêncio entre as duas passa como se fosse uma brisa. Naquele barulho todo, dava até para ouvir a respiração das duas. O pensamento, a percepção repentina era de tirar o fôlego.
A amiga virou a cadeira e as duas se viraram na mesma direção onde ele estava.
Viram os sorrisos, as conversas trocadas, o copo sendo passado para ele cheio e o vazio recolhido, a mão que acariciou o cabelo do molequinho que passou por ali travessamente,  a gargalhada de uma anedota, o abraço de um amigo, alguém que lhe serviu a torta estranha que ele comeu sem mesmo olhar e fez um sinal de aprovação – e as duas olharam para as próprias tortas - , a conversa baixando de tom, como se o assunto fosse sério e nova gargalhada, o copo derramado e novo copo trazido quase imediatamente...
Uma olhou para outra, naquele olhar “estou vendo e nem sei o que pensar”.
- Você vai comer essa torta? – ela perguntou à amiga
- Acho que não.
- Será que ele come?
- Tente...
Ela se levanta, vai em direção ao grupo e entrega a torta a ele, que já tinha terminado com o seu pedaço.
Ele olha para ela e, num raro momento, se cala. Olha para ela tão diretamente que ela quase se arrepende da travessura que estava fazendo.
- Qual o seu nome, mesmo? – ele pergunta, sabendo que não tinham sido apresentados.
- Helena. Mas, imagino que já tenha comido a torta. – já pronta para bater em retirada.
- Sim, obrigado, Helena. Mas acho que era com você que eu gostaria de conversar. Gente, com licença, porque eu estou devendo esta conversa há mais tempo e estou só papeando com vocês. – e despedindo-se  polidamente com todos, que ficaram encantados em poder dar esse momento de liberdade a ele.
Ele segurou gentilmente no braço dela e a levou para um espaço menos movimentado.
- Agora me diz – ele disse, olhando nos olhos assustados dela – qual o meu enorme defeito? Sei que foi por isso que foi levar a torta.
- Como sabia?
- A gente acaba conhecendo as pessoas, seus hábitos, suas gentilezas, seus medos, suas intrigas, suas dúvidas e também suas pequenas maldades. O que você queria fazer comigo era uma maldade. Nem foi capaz de comer a torta e queria que eu a comesse. Por quê?
Então ela entendeu, e para o resto de sua vida, que certos “por quês” fazem com que se escute a vida melhor, se abra os olhos, se escancare o coração, se pisoteie preconceitos e, quisesse ou não, fez com que concordasse com ele  que o mundo existia para servi-lo. Mas  também existia para servi-la, porque, no fundo, era tão carismática quanto ele, só que viviam em mundos diferentes. Um era capaz de enxergar o que o outro fazia, mas não enxergava o que ele próprio fazia.
Incompatíveis? Provavelmente não, mas nunca quiseram arriscar a grande amizade que nasceu dali.

Foto tirada de Fottus, no Facebook 

3 comentários:

M.M. disse...

Vou aderir ao clichê e dizer que me vi em tantos pontos...
Desde aquele dia da pimenta biquinho e da leitura deliciosa das minhas mãos, não só penso muito sobre tudo isso, como tento controlar certos impulsos.

Um beijo, Mi!

***MissUniversoPróprio*** disse...

Não conhecia esse espaço, mas acabo de me apaixonar.

Texto que prende e faz pensar.

=**

Mirian Martin disse...

MM E você sabe que em você sobra carisma. :) Agora, é aproveitar.

MISS UNIVERSO PRÓPRIO Benvinda e volte sempre. O Caldeirão vez ou outra fecha, porque a dona é intempestiva, mas sempre abre depois. :)