Assim que ele entrou no recinto era
como se tudo tivesse outro tipo de brilho. Misteriosamente, vinha dele.
Os olhos de todos buscavam os dele,
como se houvesse algum tipo de benefício se conseguissem esse tipo de contato.
Sim, ele era uma pessoa carismática.
Muito carismática. Daquelas que dificilmente se percebe um defeito, a não de
que naquele dia não tenha dado atenção justamente a uma determinada pessoa.
Mas, era uma coisa difícil, como se, além de carismático, ainda fosse daquelas
pessoas que conseguiam ter tempo e atenção para todas as pessoas – um olhar
significativo, um sorriso cúmplice, um aperto de mão firme e confiante, um
abraço afetuoso, uma risada gostosa de alguma coisa dita, uma pergunta feita em
tom pessoal, o jeito de abaixar a cabeça para ouvir melhor a pessoa e com a
máxima atenção.
Mas ela também era nova naquele
espaço. Tudo via. Tudo analisava. Percebia que estava diante de alguém que
ultrapassava a mediocridade, que estava num patamar em que via as pessoas de
outro nível e as enxergava por outro prisma.
Foi então que ele soltou a frase
para a mocinha que por ali passava, talvez uma conhecida mais íntima.
- Meu bem, faz um prato para mim,
por favor? – e o sorriso cativante, a voz suave, quase pedindo.
Mas foi justamente o “quase” que
chamou a sua atenção.
Ele não estava pedindo.
O prato veio rapidamente, junto com
outros sorrisos, agradecimentos sorridentes e tudo seguiu com uma normalidade
estonteante, dentro de uma bolha surreal. Tudo se modificava perto dele. A
alegria e o prazer em servi-lo e vê-lo feliz era quase uma bola de neve.
Então, alguém a chamou e ela deixou
de observá-lo.
- Trouxe isso para você.
- O que é isso?
- Disseram que é uma torta salgada,
mas está com uma aparência tão estranha que pode até estar boa, mas acho melhor
comer de olhos fechados.
As duas riram juntas. Era sua melhor
amiga que a arrastara para aquela festa na qual não conhecia ninguém.
- Você viu como todo mundo fica
quando ele chega? – perguntou a amiga, já com os olhos grudados nele.
- Quem é ele?
- O nome dele é Lúcio. Não sei
exatamente o que ele faz, nem de quem é melhor amigo ou coisa assim. Só sei
que, quando ele chega, parece que tudo dá uma parada e depois tudo começa a
girar em torno dele.
- Eu vi.
- No começo até pensei que ele
fizesse de propósito.
- O que? Parar a festa?
- Não! Ter esse jeito de chamar a
atenção.
- Mas ele não faz nada!
- Pois é! Depois percebi isso. Ele
não precisa fazer nada! Ele entra, dá um sorriso e todo mundo respira
diferente. É quase irritante. Não fosse o fato...
- Qual?
- Ele é de-mais!! Menina, ele é um
doce! Simpático, atencioso, super alto astral! Culto! Culto! Ele sabe conversar
e não é só sobre futebol!
- Para. Isso já está parecendo
aquele papo de “marido que toda mãe queria ter para sua filha”. É muito bom
para ser verdade. O cara, evidentemente, tem um baita defeito e esconde isso
debaixo dessa coisa toda. Diz logo. Qual o defeito?
- Defeito? Defeito?! O cara é
perfeito! Perfeito!
- Tá, então vou dizer para você qual
é o defeito que ninguém ainda viu.
- Você nem o conhece!
- Nem preciso. Eu vi.
- Viu o que?!
- Vi o defeito dele.
- E qual é?...
- Ele acha que o mundo tem que
servi-lo. E consegue isso.
- Ai, que maluca! Claro que não!
Acho que ele tiraria a camisa do corpo para dar para alguém se precisasse!
- Mas logo outro alguém daria outra
para ele, instantaneamente.
O silêncio entre as duas passa como
se fosse uma brisa. Naquele barulho todo, dava até para ouvir a respiração das
duas. O pensamento, a percepção repentina era de tirar o fôlego.
A amiga virou a cadeira e as duas se
viraram na mesma direção onde ele estava.
Viram os sorrisos, as conversas
trocadas, o copo sendo passado para ele cheio e o vazio recolhido, a mão que
acariciou o cabelo do molequinho que passou por ali travessamente, a gargalhada de uma anedota, o abraço de um
amigo, alguém que lhe serviu a torta estranha que ele comeu sem mesmo olhar e
fez um sinal de aprovação – e as duas olharam para as próprias tortas - , a
conversa baixando de tom, como se o assunto fosse sério e nova gargalhada, o
copo derramado e novo copo trazido quase imediatamente...
Uma olhou para outra, naquele olhar
“estou vendo e nem sei o que pensar”.
- Você vai comer essa torta? – ela
perguntou à amiga
- Acho que não.
- Será que ele come?
- Tente...
Ela se levanta, vai em direção ao
grupo e entrega a torta a ele, que já tinha terminado com o seu pedaço.
Ele olha para ela e, num raro
momento, se cala. Olha para ela tão diretamente que ela quase se arrepende da
travessura que estava fazendo.
- Qual o seu nome, mesmo? – ele
pergunta, sabendo que não tinham sido apresentados.
- Helena. Mas, imagino que já tenha
comido a torta. – já pronta para bater em retirada.
- Sim, obrigado, Helena. Mas acho
que era com você que eu gostaria de conversar. Gente, com licença, porque eu
estou devendo esta conversa há mais tempo e estou só papeando com vocês. – e despedindo-se
polidamente com todos, que ficaram
encantados em poder dar esse momento de liberdade a ele.
Ele segurou gentilmente no braço
dela e a levou para um espaço menos movimentado.
- Agora me diz – ele disse, olhando
nos olhos assustados dela – qual o meu enorme defeito? Sei que foi por isso que
foi levar a torta.
- Como sabia?
- A gente acaba conhecendo as
pessoas, seus hábitos, suas gentilezas, seus medos, suas intrigas, suas dúvidas
e também suas pequenas maldades. O que você queria fazer comigo era uma
maldade. Nem foi capaz de comer a torta e queria que eu a comesse. Por quê?
Então ela entendeu, e para o resto
de sua vida, que certos “por quês” fazem com que se escute a vida melhor, se
abra os olhos, se escancare o coração, se pisoteie preconceitos e, quisesse ou
não, fez com que concordasse com ele que
o mundo existia para servi-lo. Mas
também existia para servi-la, porque, no fundo, era tão carismática quanto
ele, só que viviam em mundos diferentes. Um era capaz de enxergar o que o outro
fazia, mas não enxergava o que ele próprio fazia.
Incompatíveis? Provavelmente não,
mas nunca quiseram arriscar a grande amizade que nasceu dali.
Foto tirada de Fottus, no Facebook

3 comentários:
Vou aderir ao clichê e dizer que me vi em tantos pontos...
Desde aquele dia da pimenta biquinho e da leitura deliciosa das minhas mãos, não só penso muito sobre tudo isso, como tento controlar certos impulsos.
Um beijo, Mi!
Não conhecia esse espaço, mas acabo de me apaixonar.
Texto que prende e faz pensar.
=**
MM E você sabe que em você sobra carisma. :) Agora, é aproveitar.
MISS UNIVERSO PRÓPRIO Benvinda e volte sempre. O Caldeirão vez ou outra fecha, porque a dona é intempestiva, mas sempre abre depois. :)
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