sábado, 7 de novembro de 2009

VI I - CASA ARRUMADA


Então um dia, cansada de prazer tão vazio, foi se afastando aos poucos dele. Ele foi gentil, cavalheiro, atencioso e simplesmente deu adeus quando viu que ela chorava ao tomar banho sozinha no banheiro ao lado do quarto barato de hotel. Ele, mais que ninguém, sabia o que ela sentia.



Meu Deus do Céu! – pensou ela. Na verdade nem era bem isso que havia pensado, mas o espanto era o mesmo.

Havia chegado há poucos minutos e lá estava ele, de pé, na porta, olhando para a bagunça do seu apartamento.

Claro que estava bagunçado, como não? Havia se passado mais de quinze dias sem notícias dele... Nem notícias dele, nem do mau humor dele, nem do silêncio dele, nem do corpo dele!...

Claro, tinha vivido a sua vida, se divertido, bagunçado a casa, bebido cerveja, assistido televisão, tomado sorvete de chocolate no sofá, e saído com os amigos. E ele?! Por onde ele havia andado?

Claro, não era da conta dela! Nunca era da conta dela!

E ele ali, só olhando da porta, sem dizer uma palavra, como que não acreditando no que via.

Mas a vida era assim, não era mesmo? A vida não é cheia de mentirosos, de pessoas falsas, que dizem uma coisa e fazem outra? Claro, ela fazia parte do mundo! Gostava dele? Claro que gostava! Mas gostava de si mesma e dos outros também. Onde estava a terrível traição?

E como que atravessando um mundo invisível, atravessou a sala, foi até ela e a beijou. Não como sempre, mas ternamente, como nunca. E fizeram amor, e foi amor.

E a casa continuou desarrumada o resto do dia...