quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FIM - LIBERDADE


Anita também sabia de tudo. Todos os dias ela lhe sussurrava seu medo. Todos os dias tentava convencer Anita que tudo daria certo. Elas seriam livres. Ele as libertaria, com certeza.

Era interessante ela pensar que estava olhando pela janela quando o carro nem sequer tinha janelas. Todo o carro era aberto, sem capotas, sem qualquer proteção. O carro ia devagar e com isso o seu chapéu continuava intacto em sua cabeça e o seu cabelo mal se mexia com a brisa provocada pelo movimento do carro.

Foi um tempo muito grande de silêncio.

Sentiu sua solidão.

Só tinha a Anita.

E tinha seu marido em sua cama algumas vezes para lhe dizer ao ouvido que era bonita.

E tinha aos outros para lhe dizer que era muito importante para eles, porque ele, seu marido, precisava muito dela – será que eles sabiam de algo?

E tinha aos seguranças e ao motorista que lhe seguiam os passos e respiravam o mesmo ar que ela.

E tinha a si mesma, que olhando-se ao espelho perguntava-se, afinal de contas, o que estava fazendo com sua vida.

Então o carro entrou naquela rua iluminada pelo sol da manhã.

Sentiu um zumbido perto de si, talvez um inseto errante.

Percebeu que seu marido tombava e o colocou em seu colo. Ah... teria dado tudo antes para poder tê-lo assim com ela, frágil como uma criança, pedindo seu carinho, proteção, compreensão.

Percebeu o tumulto à sua volta, mas nada mais importava. Tinha a sua liberdade e o tinha nos braços.

Vislumbrou ao longe o homem do barco. O que será que ele estava fazendo ali com seus seguranças.

Seu marido nos seus braços, o calor se indo, mas mesmo assim, ele ainda era dela. Seu marido, seu amante, sua criança indefesa e inerte.

O carro ia cada vez mais rápido. Os seguranças atrás deles. As pessoas agitadas. O seu marido em seu colo. Sua saia manchada de sangue.

E o dia continuava ensolarado e lindo...

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