terça-feira, 6 de março de 2012

MARES VERDES



Como os seus amigos diziam a seu respeito, sua praia não era o mar. Metia-se sem medo naquela mata-de-meu-deus e ficava por ali uns dias sem dar notícias a ninguém.

No começo as pessoas se preocupavam – na verdade, os amigos que contavam com ele para ir para uma praia mais agitada. Afinal ele sempre foi o líder em muita coisa, como é que não iria à praia com eles?!

O caso é que se acostumaram com isso e nem mais o chamavam quando o feriado se estendia, ou quando as férias chegavam. Com certeza o convite seria recusado e ele sumiria do mapa por um tempo e nunca ninguém saberia onde exatamente ele fora.

Então, sem que ninguém pudesse suspeitar, sem aviso, ele apareceu na praia.

Ele percebeu primeiro os olhos arregalados de incredulidade, depois o festejo pela sua presença e, finalmente, a indecisão do que fazer já que ele estava por ali.

Era uma coisa estranha para todos. Acostumados que estavam a não estar com ele na praia em dias longos, faziam o que bem entendiam e não se preocupavam com sua opinião. Mas, agora, tudo mudava e o constrangimento era evidente. Não tinha como não sentir nem mesmo ignorar.

Assim, do mesmo modo que ele foi, sem mais partiu para a sua praia.

Dizem que foi uma despedida. Outros dizem que, na verdade, ele nunca estivera ali, mas somente o seu espírito. Outros, mais céticos, e que nada viram, dizem que tudo não passa de lenda.

O fato é que desde aquele dia ninguém mais sabe dele. Sumiu. Afogou-se no seu mar, na sua praia.

Tem gente que acredita que ainda vai aparecer. Tem gente que também acha que devem ir atrás dele, mas contra isso pesa o fato de absolutamente ninguém saber para onde, afinal de contas, ele foi.

Eu, particularmente, acredito que ele achou o que tanto procurava. O que? Não sei, mas isso pouco importa agora que ele nem está aqui para concordar ou discordar de mim e de todos.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A ESTRADA



Sabe daqueles lados de Minas, em que o calor é tanto que a onça nem sai da toca? Pois é, foi por lá.
Já era noite fechada, os vaga-lumes já faziam festa no céu e os sapos já cantavam em algum brejo que tinha se esquecido de secar.
A estrada era asfaltada, disso tenho certeza, pelo menos até aquele ponto em que, de repente, ela sumia mato adentro e aparecia um braço de estrada à direita. Claro, nem se discute. Entrei no tal do braço de estrada que convida para sair daquele caminho incerto.
Não tinha placa, nem nada. Só aquela estrada nova.
Andei mais um tantão, até que aquela estrada acaba num cruzamento.
- Diacho! Para esquerda ou direita?
Era esse o “causo”. Nenhuma placa e duas direções. Três, se resolvesse voltar atrás.
Então peguei à direita, porque na dúvida sempre pego a direita, sei lá por que.
A lua ainda estava no céu, ou tinha alguns postes iluminando, nem sei. O caso é que eu enxergava tudo.
Quando já tinha andado bem uma hora sem placa, sem gente, sem carro, sem cavalo, sem mais nada aparecendo nesse caminho estranho, parei.
Dos dois lados mata alta, provavelmente milharal, porque os canaviais já nem eram daquele Estado.
É claro que o medinho até passou por perto. Uma cobra por ali nem era difícil. E o ouvido ficou mais atento e todos os ruídos do mundo parece que resolveram aparecer.
Já não bastavam os sapos que me acompanharam, ainda tinha o que parecia rastejar, o chacoalhar das plantas, os cri-cri dos grilos, e sei lá mais o que.
Foi então que vi uma luz. Não aquela luz que aparece de repente, mas aquela luzinha que vem devarinho, devagarinho... Nem muda muito de tamanho, só vai chegando mais perto, mais perto.
- ‘Noite. – disse o caipira que vinha fumando o seu cigarro de palha.
- Boa noite! – respondi eu, aliviado de ser alguém e não uma mula sem cabeça. – Ei, amigo, tá muito longe um posto de gasolina?
- Uai! Seu carro tá onde, moço?
- Faz horas que estou andando e não vejo nada! Meu carro ficou lá atrás. Na outra estrada ainda. E nada de um posto.
- Olha, moço, vai andar aí bem uns quinze minutos. Lá do outro lado da estrada. Tem um posto lá, simplesinho, mas é bom. Fala com o Zé Carica do seu problema. Diz prá ele que o Mané da Tonha é que mandou você e ele trás de volta até seu carro.
- Nossa! Que alívio! Pensei que nunca acharia! Mané da Tonha, né?
- Isso! Diz prá ele. E dá um recado prá ele também, pode ser?
- Claro!
- Diz prá ele que eu ainda estou cuidando das coisas que deixei.
- Ele vai entender o recado.
- Mas, evidente, seu moço! E nem se preocupa se ele for meio assustado porque ele é assim mesmo.
- Obrigado, amigão! Muito obrigado!
- De nada, seu moço. De nada...
E lá se foi ele. Na escuridão que tava, mal dava para ver, quando eu olhei para trás, a brasa de seu cigarro fedido.
Assim, foi que cheguei no posto de gasolina, do jeito que ele havia me falado.
Falei com o Zé Carica que, como Mané havia me dito também, era um sujeito meio assustado. Mesmo assim, tratou de encher um galão de gasolina e me levou para o carro e ajudou a abastecê-lo. Indicou a direção que eu deveria seguir e foi-se embora. Calado como foi ele voltou.
Hoje me lembrei desta história, sei lá bem por que.
Talvez tenha lembrado porque certas coisas a gente nem sabe bem o por que ou de onde surgem, mas fazem um bem danado a gente. Acho que é isso...
Trem bão...

Foto: Eu, de um por do sol na estrada, entre Uberlândia e Uberaba - MG. Tempo de seca e muitos redemoinhos e terra vermelha sendo preparadas para o plantio.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

MÁGICA


Só quem estivesse ali, como eu, poderia dizer da emoção que é.

Num primeiro momento as luzes fazem com que a nossa vista não consiga ver ao certo o que temos pela frente. Talvez as luzes tenham exatamente essa função – nos deixar tontos, sem termos ideia do que nos espera.

Mas depois, parece que tudo se desvanece. E vemos os rostos. Os olhos em nós. Nesse ponto tudo em nós é energia que se desprende e volta com maior intensidade.

Só mesmo os fracos para não sentir isso. Os fortes aproveitam toda essa carga de energia e se fazem mágicos.

Eu não sei se sou fraca ou forte. Só sei que é impossível ignorar isso.

Amo o palco. Amo essa magia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

VITRINE



Dezessete horas em ponto. Sorriu e caminhou pelo corredor do shopping. Adorava andar por aqueles corredores.

Olhou rapidamente pelas pessoas registrando tudo, até mesmo conseguiu, com uma e outra, imaginar o que estariam fazendo por ali, sentadas nos bancos frente aos restaurantes – cansadas das compras, segurando crianças inquietas, esperando alguém que iria demorar muito, funcionários que ficariam até tarde trabalhando.

Então viu a vitrine da loja.

- Linda! – pensou ao ver a calça de linho preta.

Era um dos seus objetos de desejo. Adorava linho e, aquela em especial, que compunha a vitrine, estava com uma echarpe de seda. A camisa não fazia seu estilo, mas a calça e a echarpe tinham a sua cara. Ficou em dúvida se entrava para ver o preço e até mesmo experimentar a peça, mas se o fizesse iria querer comprar e não tinha idéia de quanto tinha em conta corrente. Detestava essas situações em que tudo o que desejava estava à sua frente, mas não sabia se poderia arriscar um lance mais alto em sua conta bancária.

Sentiu alguém ao seu lado e mal olhou. Apenas percebeu que era um homem e achou estranho, já que era uma loja feminina.

- Gostou da vitrine? – perguntou ele com certa irritação na voz.

- Sim. – sem se importar em responder.

- E mal olhou para quem estava por perto, não?

- Claro que olhei! Não tinha ninguém por aqui. – levemente irritada.

- Você veio direto para cá! – mais irritado.

- Também não tinha ninguém de camisa vermelha. – percebendo de quem se tratava.

- Mas, pelo jeito, você pouco interessada estava se tivesse, ou não.

- Bom, pelo jeito, se eu fosse horrorosa, nem a camisa vermelha, e nem mesmo essa xadrez eu veria, não é?

- Ah! Eu pelo menos fiquei atento a você, só a você! Não fiquei vendo vitrines!

- Verdade? – irônica, bem irritada – Eu andei o corredor inteiro procurando uma camisa vermelha! Agora, se ela não estava aqui no horário marcado, o que eu faria? Me desesperar? Eu, ao menos não menti.

- Eu não menti. Eu estou aqui, não estou?

- Ah! Mas acho que você nem é quem estou esperando, já que espero alguém de camisa vermelha, e não xadrez.

- Sou eu, mesmo, deixa de gracinha! Sei o seu nome, onde trabalha, telefone...

- Não me diga... O catálogo telefônico também.

- E sei que estava esperando por Marcos e meu nome é Marcos. Posso lhe mostrar a identidade.

- Mesmo?  Quantos Marcos tem no mundo, não é?

- Aiii... Está bem, está bem! Desculpa! Eu fiquei com receio de... de... Caramba! Toda mulher que tem uma voz linda no telefone não quer dizer que... que... Você sabe do que estou falando!

- Não, não sei. E como já passou a hora, acho que vou embora. Ele, definitivamente não vem. Foi quase um prazer conhecer você... Marcos, não é?

- Você sabe que sou eu! Só está fazendo isso porque não gostou de mim, me acha feio...

- Feio? Nem por um momento me preocupei com isso. Aliás, seria bem fácil o rapaz de camisa vermelha me achar, mesmo sendo ele feio, chato, grosso, mal educado...

- Desculpa! Desculpa! Desculpa! Vamos começar de novo. Por favor...

Sabe-se lá porque, ela resolveu que seria uma boa oportunidade para testar sua paciência.

Lá no começou do corredor viu um rapaz correndo, esbaforido, com uma camiseta vermelha, sorrindo.

- Oi. – disse ele, quase sem fôlego – Obrigado por ter esperado.

- Eu sabia que chegaria. Nem tirou as etiquetas da camiseta – riu ela.

- Nem a camisa xadrez. Vamos tomar um sorvete?

- Claro.

Segundo ela, valeu a pena.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

VIA CRUCIS



Quase um sussuro. Foi mais ou menos assim que começou. Um quase nada que depois se revelou muito mais do que aparentava ser.

Então todos ficaram sabendo – ele tinha chegado. E se não tinha, estava para chegar.

Ela estava  agitada, como sempre ficava naquelas ocasiões. Já fazia um bom tempo que nem dava as caras por aquelas bandas mas, sabe-se lá por que, ela lembrou-se que deveria ser época dele estar por ali e, só por isso,  bastou para atiçar toda a sua vontade de lembrar-se dos maus bocados que tinha passado. Por isso voltou para lá.

A princípio, uma voltinha, tipo “só para ver”. Claro que isso não bastou. Aliás, nunca tinha bastado. Toda vez que passava por lá era para ficar horas e horas se martirizando com coisas que achava que tinham acontecido ali ou acolá. Nunca lhe passou pela sua cabeça que tudo isso só aconteceu na sua imaginação.

Quando perceberam que o seu passeio seria mais longo, como antigamente, todos suspiraram de piedade. Ai, ai... lá vai ela. Como numa “via crucis” inescapável onde, já que tinha dado o primeiro passo naquela direção, teria que ir até o fim de seu martírio, para finalmente chorar sozinha na sua solidão dolorida e perversa.

“Por que me abandonaste?”

foto: André Martin, Congonhas - MG, três paradas da via crucis antes de chegar na igreja.