segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

NOITE DE NATAL



Ela andava pelas ruas. Catava as latas de alumínio, os plásticos, material reciclável para vender e colocar alguma coisa de comer na mesa à noite e no café da manhã para seus filhos.

Não se preocupava com o almoço. As crianças almoçavam na escola, graças a Deus! Ela achava mesmo que precisava de fazer um regimezinho para perder um pouco de peso. Mas, por menos que comesse aquela barriga sempre lhe dizia que estava comendo demais. Então resolveu ignorar esses sinais e vivia feliz com a sua gordurinha dos tantos salgadinhos que achava pelos caminhos.

Agora, quando passava pelas ruas, todas enfeitadas por causa do Natal e Ano Novo, o seu coração se aquecia de alegria.

Tinha gente que ficava com pena dela, coitada, pobre, que mal tinha o que comer, nem sapato ou roupa nova e sem poder dar presentes novos para os filhos.

Tá... até que gostaria de ter tudo isso, ter o prazer de ver a alegria estampada nos olhos dos filhos ao receber um presente de Natal que eles realmente queriam receber, e não aquelas bolas e bonecas de plástico vagabundo de todo ano. Ou então colocar uma mesa cheia de coisas deliciosas para a família comer. Ou chamar toda a família para passar os feriados em sua casa. Sim, tudo isso gostaria, sim.

Mas existia uma coisa que gostava mais do que tudo isso. Uma coisa que fazia todos os anos, quase como um cumprimento de uma promessa. E levava os filhos juntos.

Na noite de Natal, quando todos estavam em suas casas comemorando, ela e os filhos saíam de seu barraco, hoje quase uma casa de tijolos, e iam para a Marginal Tietê. Sempre a pé.

Nem era tão longe. As crianças iam rindo , correndo na frente, brincando. De certa forma tinha conseguido ensiná-las reconhecer o que era bom.

Então, chegavam lá. Debaixo daquela ponte. Ainda hoje via não só sinais de sua passagem por ali, mas via pessoas que, como ela, se ajeitavam com seus trapos se protegendo da friagem da madrugada.

Os seus filhos, naquela algazarra de crianças felizes, acordavam aquelas pessoas, já tontas de sono ou da bebida. Zangadas, algumas até xingavam. Mas ela nunca se importou com isso – entendia. Era quando eles percebiam que alguém tinha se lembrado deles.

Naquele seu carrinho, onde todos os dias carregava os lixos recicláveis, levava sopa, pão torrado, e vez ou outra até conseguiu levar frango desfiado em sanduíches. As crianças adoravam aquela festa tão diferente. De gente estranha sendo surpreendida, como crianças quando Papai Noel aparece com seus presentes pedidos.

Todos os anos, depois que saiu dali, quando seu marido morreu atropelado porque havia bebido demais deixando-a com aquelas três crianças, vinha novamente ali e nunca encontrou as mesmas pessoas, como se fosse um ponto de passagem.

Algumas amigas diziam para ela nunca voltar para lá, porque era um passado ruim e que deveria esquecer. Mas não ela.

Para ela, passado é parte do que é o presente. E o presente de Natal dela, para si mesma, era rever o passado, para ser melhor o seu futuro e o futuro de seus filhos.

Agora, enquanto prepara a sopa de Natal no caldeirão que conseguiu emprestado do bar da Maria, lembra que ainda tem que conseguir o pão velho para fazer as torradas.

- Vizinha! – diz uma mulher, já entrando na casa-barraco – Este ano vou eu e meu filho com vocês. Não quero passar sozinha o Natal. Quem sabe a minha vida melhora, como a sua.

- Ficou sabendo? – diz ela, sorrindo.

- Fiquei. Sair das ruas é bom demais! Ter carteira assinada melhor ainda!

- Deus é Pai! – diz ela experimentando o sal.

- Eu vou levar sanduíche de carne. – avisou a vizinha enquanto saía.

- Deus é Pai...
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Foto tirada daqui, um blog social, prá lá de interessante! Aparentemente parado, mas que deveria dar continuidade.

Aos meus leitores, um Feliz Natal, um Ano Novo cheio de novidades, conquistas, curiosidades, novas metas. Que o amor não seja uma palavra simplesmente, mas um sentimento que crie raízes. Que o realizar-se não seja somente uma meta de vida mas um desdobramento de uma vida plena. Que a plenitude não esteja em possuir tudo o que sempre quis, mas em dar-se em tudo que pode.

Um grande beijo a todos e até o ano que vem!

Férias!!!! :)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

IV – AS QUARESMEIRAS - Fim


Acho que muita gente nem sabe se tem pintinha ou não. São lugares tão estranhos para se ter uma pintinha que só mesmo um espião da noite, especialista nisso, é que poderia desconfiar e procurar.

"Mas se um espião da noite descobre o esconderijo de uma princesa acontece coisas espantosas!

Já disseram que viram nuvens muito escuras em cavernas muito longe de qualquer civilização, que soltavam grandes gargalhadas e raios fantásticos e aterrorizantes.

Logo depois disso, testemunhas oculares viram outras nuvens, muito mais negras ainda, que entraram muito rapidamente na caverna e assim como entraram, saíram com uma pobre princesa que gritava desesperada, para logo depois sumirem, com certeza para o refúgio das quaresmeiras, onde seria devorada.

Antes de serem devoradas pelas terríveis quaresmeiras, as pobres princesinhas passam sempre por um ritual maligno, onde são obrigadas a se ajoelharem perante uma estátua de uma quaresmeira mais horrível do que qualquer outra quaresmeira e aí, depois de um banho de ervas, todo preparado pelos espiões da noite e por isso também tem um cheiro muito ruim, são devoradas pelas quaresmeiras que dançam em torno delas, numa dança muito louca.

Essa dança atordoa tanto a princesa que nem percebe direito o que está acontecendo e assim, o seu espírito assustado passa a ser posse das quaresmeiras, que apesar de devorarem a princesa, não deram tempo para o seu espírito se libertar do corpo e partir para o lugar onde todos os espíritos vão.

O espírito da princesa fica então aprisionado, atordoado ainda pela dança das quaresmeiras e quando se apercebe do que ocorre, foge para lugares muito longe, normalmente perto do seu príncipe escolhido que está enfeitiçado pela bruxa malvada."

Coisa horrível!

Acho que é por isso que o Maurício vive emburrado. Deve ser um príncipe enfeitiçado. Mas quem terá sido a sua princesa? Será que ela foi bonita? Será que tem um jeito de quebrar o feitiço sem que seja a princesa escolhida? Acho que sim, não é verdade? Afinal de contas, existem tantas pessoas no mundo, talvez tantas quanto quaresmeiras.

E se eu for uma princesa? Posso ser a princesa escolhida do Mauricinho... Ele nem deve saber disso... E se souber é bem capaz de me denunciar para um espião da noite fedorento!

Mauricinho já me denunciou uma vez para aquela zoiuda! Disse que eu não tinha feito a lição de casa e que tinha que levar ponto negativo porque ele também tinha ponto negativo por isso. Idiota! Levei a maior bronca em casa por causa disso. Mamãe assinou o bilhete daquela quaresmeira disfarçada e me botou de castigo, sem perdão, dizendo que da próxima vez o castigo seria outro e daí eu aprenderia a lição direitinho. O que ela quis dizer com isso? Será que mamãe também é uma quaresmeira que conhece todas as minhas pintinhas e só está esperando que eu engorde um pouquinho mais para depois me devorar, sem perdão? Acho que não.

"Exitem, porém, quaresmeiras fantasticamente cruéis, que alimentam suas presas desde a infância e quando elas já estão bem gordinhas, prontas para o seu ritual maligno, então deixam que os espiões da noite se aproximem delas, as enganem e as levem para lugares lúgubres, onde são preparadas para o ritual.

É claro que neste momento elas não tem coragem de olhar para a sua presa indefesa, então o ritual é feito de costas para a princesa, que nunca ficará sabendo quem é a quaresmeira que irá devorá-la sem piedade."

Bom, não acho que minha mãe seja uma quaresmeira de verdade. Não é, mesmo!

Tá certo que de vez em quando ela encrenca um pouquinho, mas é só isso!

Quaresmeira, não!

"Na verdade, existe um método muito simples para destruir uma quaresmeira.

Dizem que há coisa de muitos anos, quando uma princesa, acidentalmente, na cozinha derrubou um pouco de sal no chão, muito perto de sua criada, que há muitos anos cuidava dela e de sua educação.

O susto da criada foi incrível, denunciando-a como uma quaresmeira e, quando esta tocou no sal, derreteu-se como uma lesma".

Já viram como uma lesma derrete quando a gente coloca sal em cima? É simplesmente nojento.

Ei! Olha lá uma!

Péra! Deixa eu pegar um pouco de sal. A redação eu termino amanhã. Tá uma chatice isso. Cansei.

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Foto tirada daqui.

Seguinte: Eu saí do Haloscan e com ele foram todos os comentários, que foram devidamente salvo mas que não tem como importar para o blogger (pelo menos foi o que li).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

III – AS QUARESMEIRAS - As nuvens negras


Acho que minha professora é uma quaresmeira. Verdade! Ela fica me rondando, rondando, me olhando com aqueles olhos horrorosos, esbugalhados, querendo saber se fiz a lição de casa ou não, perguntando se moro longe, o que meus pais fazem, o que vou ser quando crescer, essas coisas todas que uma quaresmeira quer sempre fazer.

Lia acha que é implicância minha. Mas ela diz isso porque só tem nota dez, nove, sempre vai no quadro fazer as contas, só as redações dela é que são lidas pra classe. É uma nerd! Mas eu gosto dela assim mesmo. Não é uma quaresmeira como aquela zoiuda.

Tem uma, sim, que eu não suporto. É a Maria de Fátima. Menininha mais insuportável! Chega a me dar enjôo quando eu olho para aquela garota.

Pois então, outro dia essa Fatiminha teve a coragem de me pedir um pedaço do meu lanche. Credo! E eu dei! Não é terrível?

Eu fico só imaginando se ela for uma quaresmeira também. Tocando no meu lanche... Aquela boca cheia de maldade... Pedindo por sangue de princesa... Argh!

"Os espiões da noite são invisíveis, mas cheiram mal, cheiram a enxofre, à pântano, às coisas do mal, à perversidade.

Existem princesas ainda no mundo, porque sentindo o cheiro horrível dos espiões da noite, fogem para lugares bem distantes, impossíveis de serem alcançadas. É claro que ficam muito isoladas, distantes de todo ser humano, até mesmo dos príncipes, seus prometidos, que muitas vezes, desolados, acabam sendo apanhados por uma bruxa malvada que os transformam em seres horrorosos, que só serão libertos do feitiço caso a princesa certa os beije na testa.

Mas é muito difícil de acontecer isso, já que essas princesas estão escondidas.

Isso não passa de uma amardilha para as princesas saírem de seus esconderijos para serem devoradas pelas quaresmeiras".

É verdade...

Uma vez, de noite, mamãe deixou a janela aberta porque estava muito quente. Então, entrou um ventinho e veio um cheiro tão ruim... Daí mamãe entrou no quarto, disse que estava ventando muito lá fora e fechou a janela. O cheiro foi embora, mas...

Ah!... E quem disse que sou princesa de verdade? Nem sei se tenho uma pintinha no dedinho do pé esquerdo!

Mas podia ter, não é mesmo?

Nunca reparei nisso...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

II – AS QUARESMEIRAS - O sino


"As quaresmeiras".

As quaresmeiras… Que mais?

"São mulheres que rezam muito na quaresma.
Elas..."

Elas se vestem de preto?

Não sei. Acho que nunca vi uma de perto. Acho que vi uma que tem um crucifixo bem grandão dependurado, mas eu não sei se era quaresmeira.

Acho que se vestem de branco, né?

"Elas se vestem todas de branco e vão à igreja rezar assim que os sinos tocam chamando todos para a missa da quaresma".

Eu nunca fui numa dessas.

Como será que é, hein?

Que droga de professora! Acha que todo mundo é católico, vai na missa direitinho e sabe todos os dias santos!

Eu?!

Eu não sei nem o que é quaresma! E aquela zoiuda quer que eu fale das quaresmeiras!

"As quaresmeiras"

Muito bem, e daí?

Bendita redação! Podia muito bem estar lá fora com a Lia brincando de Xuxa e Angélica. Gosto muito mais da Angélica. O meu cabelo é parecido com o dela. Quando eu crescer vou deixar daquele jeito. Não escorrido como o da Xuxa. Detesto! E além do mais, ela copia muita coisa da programa da Angélica. Não sabe nem imitar direito as coisas!

E aquela mancha na perna da Angélica... É legal! Eu não tenho, mas parece aquelas marcas que as princesas tinham, e daí só descobriam quem era princesa ou não pelas marcas. Então aparecia um príncipe encantado, que já tinha sido sapo, ou um monstro qualquer, que a bruxa malvada tinha transformado e salvava a princesa de um perigo terrível e pronto! Eles se casavam, tinham filhos e eram felizes para sempre!

Não é?

Puxa... Eu podia ter uma marca. Podia ser uma pintinha qualquer, no dedinho do pé, que só uma pessoa soubesse, do outro lado do mundo e então viesse me salvar da...

Ai!... Das quaresmeiras!

"Quando, então, são seis horas da tarde e todos estão dentro da igreja, as unhas das quaresmeiras começam a crescer e ficam muito grandes, como se fossem garras.

Os sinos continuam a bater e, antes que toquem a última badalada, elas começam a uivar como lobos famintos".

São horríveis essas quaresmeiras, não?

"Ninguém pode sair da igreja e sentem muito medo, porque as quaresmeiras são devoradoras de pessoas, principalmente de princesas.

Não é sempre que tem princesa nas igrejas, então as quaresmeiras ficam com muita raiva e devoram a todos, sem deixar nada de prova contra elas, já que são seres desconhecidos, que moram nas trevas. Só saem quando acham tem princesa por perto.

Quando elas descobrem uma princesa vão onde elas estiverem, não importando distâncias, perigo, nem nada!

Elas tem espiões da noite, que quando todos dormem vão de quarto em quarto, de cama em cama, bem de mansinho, descobrir quem é princesa.

Só é princesa quem tem uma marca num lugar bem diferente, desconhecido, que ninguém veja. Por exemplo, uma pintinha no dedinho do pé. Do pé esquerdo, naturalmente".

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Foto tirada daqui.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

I – AS QUARESMEIRAS


"Uma árvore de pequeno a médio porte, de grande beleza quando apresenta suas flores roxas, e por isso muito utilizada em paisagismo urbano. A variação Tibouchina mutabilis tem flores rosas misturadas com as roxas. Normalmente inicia a floração entre Fevereiro e Março, e algumas árvores mantêm a floração até o mês de Maio".

Esta definição achei neste site que fala muito sobre árvores brasileiras, principalmente as do Cerrado brasileiro.


O texto que vou postar foi escrito justamente no final do mês de fevereiro de 1990, quase 20 anos atrás, quando as quaresmeiras estavam florindo. São Paulo está cheia delas. E em volta do Hospital Beneficência Portuguesa, onde meu irmão estava internado, estavam todas floridas, lindas, disfarçando a dor que ia por dentro daquele prédio.

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Foto tirada daqui.