sábado, 23 de janeiro de 2010

VIRANDO A PÁGINA


Hoje, enquanto a conexão não é liberada, fiquei pensando a respeito de tudo o que a blogosfera significou para mim desde final de 2006, quando entrei nela.

Não entrei como a grande maioria, já fazendo seus blogs, mas como comentadora de vários, como Daniel Moraes, que afinal, foi quem me apresentou à blogosfera. Daí a comentar em todos os blogs linkados no dele foi um passo.

E o pessoal começou a reclamar, porque eu comentava e nem blog eu tinha.

Era o começo de uma fase pessoal difícil, estranha, que eu jamais pensava em passar.

Surpreendentemente, foi exatamente nas amizades virtuais que consegui o maior apoio e liberdade para expor o que estava sentindo e passando. Alguns amigos, por mais distantes e por mais silenciosos que estejam agora, serão sempre inesquecíveis.

Na blogosfera eu colocava os meus contos, a minha parte criativa que parecia que tinha sido "eletrificada" com o meu "problema".

Durante estes anos, alimentei o meu blog, aumentei o número de amigos, alguns deles deixaram de ser virtuais para serem reais, daqueles que é gostoso abraçar, rir junto, chorar junto. Daqueles que a gente tem o telefone, endereço e convite para ficar em casa. Daqueles que a gente viaja só para jantar junto e ouvir a risada gostosa. Daqueles que a gente encontra mais de uma vez e sempre se surpreende, deliciosamente, que está vendo aquela criatura sumida. Daqueles que, embora não tenha apertado nem mesmo as mãos, sabe que, se atravessar o Atlântico vai estar lá esperando.

Entretanto, tudo tem um ciclo na nossa vida. E acredito que o da blogosfera, para mim, está encerrado.

Os meus amigos sempre serão meus amigos. E sempre haverá oportunidade para nos reencontrarmos.

Encerro aqui o Caldeirão da Bruxa com um agradecimento a todos que sempre vieram dar uma espiada ao que estava sendo preparado – contos, "novelinhas", opinião. Nem sempre agradou – nem sempre acerto na quantidade de sal ou ingredientes corretos. Mas sempre teve alguém por aqui.

Outro dia alguém disse que blog não deixa de ser uma coisa para exibicionistas. Concordo em parte – se eu não fosse esse tanto exibicionista não teria esse tanto de amizade tão diversa. Se eu não sou capaz de fazer amizades sem internet? Sou. Quem me conhece sabe que sou. Mas também sabe que sou capaz de falar sobre tudo, menos sobre o que me aflige.

E por isso Caldeirão chega ao fim – cumpriu a sua finalidade.

Agora é hora de uma nova etapa.

A todos, um beijo enorme da Senhora Bruxa.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

FUGA (FIM)



Hoje, quando olho da janela do avião, deixando tudo para trás, tudo aquilo que fui, amei, fiz, sinto meu coração se apertar, quase desejando não ter saído de lá.

Sei que era a minha única alternativa.

Foi tudo tão absurdamente rápido, como se todas as minhas energias tivessem voltado por aqueles poucos minutos para poder agir daquele modo.

Quando ouvi a voz do médico novamente se aproximando da cama, um medo se apossou de mim, entendendo, finalmente, a origem de todo ele.

Eu já podia falar, já me lembrava de tantas coisas. Ele sabia disso. Ele e mais ninguém. Só ele conversava comigo. As enfermeiras, pelo que percebi, eram proibidas de conversar comigo. Talvez falar comigo, mas não conversar, não estimular minhas lembranças.

Um pouco antes, a enfermeira tinha tirado o medicamento do meu braço. Os dois braços estavam livres. Assim, foi fácil empurrá-lo tão logo se aproximou de mim com uma seringa.

O estrondo foi grande. Ele caiu sobre os equipamentos – não esperava a minha reação.

As enfermeiras vieram ao meu encontro para me segurar, mas viram que ele tinha um corte na cabeça que sangrava muito e uma seringa espetada em sua mão.

Socorreram-no, pois ele já passava mal. Enquanto isso, corri para fora da CTI, quase nua. Foi quando me deparei com ele, angustiado, do lado de fora.

Aquele homem que me socorreu, que sempre me socorreu nos meus piores momentos, estava lá, novamente. Abraçou-me e levou-me. Assustado e sem palavras.

Contei a ele, em palavras procuradas lentamente, o que havia acontecido. Ele pegou do seu celular e ligou para alguém que talvez ajudasse, não sei ao certo.

Ajudou-me a trocar de roupa no meu apartamento, pegou meus documentos, passaporte e correu comigo até o aeroporto e colocou-me neste voo. Disse que alguém irá me esperar. Não sei ao certo quem. Talvez uma amiga. Não sei.

Sei que ele ficou.

Disse que agora já sabia quem era o grande vilão da história e que a polícia iria cuidar de tudo. Mas que eu ficaria bem longe disso. Muito longe.

E é para bem longe que estou indo agora. Tão longe, que nem sei para onde é.
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Foto: Um Martin, voando sobre a Cordilheira dos Andes.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SEM MÁSCARA


- Mano! Mano! – dizia o outro agitado para o outro – Você não me disse nada! Nada! Nunca! E eu acreditei em você! Sabe o que é isso? Uma baita de uma palhaçada! Eu me senti o palhaço, entende? Um palhaço!

- Mas, cara...

- Sem "cara"! Um palhaço! Defendendo você e o tempo todo sem saber que você conhecia a fulaninha-quase-morta. Qual é?! Que raio de amigo é você? Me diz! Eu tenho sido seu amigo, e você? E você?!

- Eu não tenho sido seu, está certo. Mas tenho sido o dela. – responde em meio tom.

- Claro! Dela! Pode até ter matado a mulher e foi muito amigo. Muito!

- Não fui eu!! – já alterado – Não fui eu! Será que vai me escutar?

O silêncio das possibilidades se instalou.

- Eu realmente a conheço. Talvez mais ainda do que o seu amigo investigador supõe. – começa ele – Acontece que naquele dia eu realmente saí bem antes que ela. Saí com raiva e preocupado. Com raiva de outras pessoas, pronto para qualquer coisa e preocupado com a segurança dela.

- Que outras pessoas? – a agitação já diminuindo.

Ele hesita. Até que ponto poderia confiar? Mas, por outro lado, tinha sido seu amigo até então; ele próprio é que falhara com a amizade.

- São traficantes de pedras preciosas.- responde num suspiro pesado.

- Ela é traficante?! Você está envolvido com traficantes de pedras?!

- Não! Não estou! – exasperado – Nos conhecemos num restaurante, num evento. Ela trabalha com pedras semipreciosas. Acontece que uns traficantes andavam a assediando para que traficasse pedras preciosas, já que ela tem um grande número de clientes no exterior. Seria fácil para ela passar as pedras.

- Ela aceitou, né? – sentando na frente do amigo.

- A princípio, não. – diz ele meio constrangido – Mas eles começaram a pressionar demais. É muito dinheiro. E não é só aqui no Brasil que ela tem negócio. Na África também. Ela consegue as pedras e despacha as pedras.

- E?

- Bom, daí ela começou a me colocar na roda. – diz ele de cabeça baixa.

- Como?!

- Nós começamos a colocar as pedras preciosas na bicicleta. Mas poucas. O suficiente para ela não se incriminar demais. O suficiente para eles se contentarem. Mas... O suficiente era pouco.

- Não entendi.

- As pedras vinham da África. As melhores pedras. Vinham dentro de uma bicicleta. Sempre a mesma marca. Igual a minha. Depois eles a pagavam e eu fazia a entrega. Eu sempre fazia o mesmo trajeto, todos os dias, para não dar na vista. Uma vez ou outra parava para tomar água em lugares sempre diferentes. E quando era o dia de entrega deixava a bicicleta e voltava com outra vazia, igual.

- Deus do céu.

- Então, um dia antes eles avisaram que queriam mais. Nunca soube com quem ela falava. Ela entrou em pânico, porque não tinha mais nada e nem dava mais tempo sem gerar desconfiança. Eu disse que mataria quem quer que fosse que lá estivesse. Peguei a bicicleta vazia e fui.

- Ela estava vazia?

- Estava. Saí como louco. Odiando os tratos que ela andava fazendo, se enrolando cada vez mais, odiando os traficantes que a pressionaram tanto e fazendo, dela mesma, uma traficante. Eu estava sem noção do que eu ia fazer. Totalmente maluco.

- E o acidente? E a outra mulher?

- Bom, daí que, quando ela se deu conta foi atrás de mim. Sabia o meu caminho. Quando me achou, se emparelhou comigo, mas eu não parei e continuei. Ela acelerou e tentou parar na minha frente. Só que não conseguiu frear a tempo. O carro foi para o precipício. Eu larguei a bicicleta e foi do jeito que você sabe.

- E a outra mulher?!

- Eu mal a vi. Quem viu foi ela. Ela estava se dirigindo a ela quando disse que a tinha matado. Mas eu não tinha me dado conta disso, até ela sumir debaixo dos olhos dos policiais. E a minha bike junto.

- Eles devem ter se sentido muito frustrados ao ver que não havia nada na bike.

- O meu pavor, cara, é exatamente esse. – disse ele com os olhos marejados – Eles podem se vingar. Ela está viva e eu também. Eu não sei nada e só trato com gente que também não sabe nada. Só troco as bicicletas. Mas ela... Ela sabe.

- Cara, a polícia tem que saber disso! Como é que você não disse nada disso?! Você é louco! Ela pode morrer ainda!

- É que... – gaguejou – Logo depois recebi um telefonema. Se eu ficasse calado nada aconteceria a ela. Tudo daria certo. Vou todos os dias ao hospital saber dela. Sei que está recuperando, mas não sei a extensão do braço desses caras. Entende?

- E não reconheceu ninguém lá no hospital que pudesse ser um dos traficantes?

- Uma das pessoas. A voz não é desconhecida. Mas eu não posso afirmar nada.

- Pode deixar, cara. Eu descubro.

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Foto: André Martin, do Davi quando era pequeo o suficiente para não conseguir comer aquela lasanha inteira. Hoje, sempre pensa em comer duas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

AMOR PERIGOSO



As duas enfermeiras eram loiras – Fátima e Mariana. Falavam o tempo todo, mas em voz baixa, quase em sussurros. Sorriam quando olhavam para mim, como se eu fosse parte de uma vitória pessoal delas. Bom, não deixava de ser.

Tinha outras enfermeiras que se revesavam com elas – Helena, Maria e Linda. Mas as duas primeiras eram as minhas favoritas.

O médico, surpreendentemente, era um senhor de seus sessenta anos ou mais. Nunca imaginaria que aquela voz tivesse um corpo tão antigo! Na verdade, nunca pensei que aquela jovialidade toda pudesse existir em uma pessoa com mais de cinquenta anos. Descobri que sou preconceituosa...

Todos os dias vinha falar comigo, mesmo eu mal podendo articular uma palavra corretamente.

Então ele falou novamente sobre o rapaz da bicicleta.

Eu fechei os olhos, porque as imagens atropelavam a minha mente. Meu coração disparou.

Ele segurou a minha mão.

- Você o conhece, não?

Foi inevitável apertar sua mão. Sim, eu o conhecia. Conhecia sua voz, seu corpo, sua docilidade, sua preocupação em me proteger. E sabia que agora, mais que nunca, era ele que corria perigo.

E eu não podia fazer nada. Não daquele jeito, mal podendo falar.

Lembrei do dia em que recebi a ameaça telefônica. O como ele ficou transtornado em saber. Sua raiva sem saber ao certo a quem dirigir.

Tudo nele era meio passional.

Talvez por isso eu o amava tanto...

E agora, deitada aqui, sem poder me mexer direito, sem poder relembrar tudo de uma vez, sem poder dizer nada direito, sem saber ao certo o que funciona ou vai funcionar direito daqui para frente, penso que amar demais é perigoso.

Perigoso demais...
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Foto: André Martin, dos meninos, no Chile. Evidentemente ele nunca tiraria esta foto se eu estivesse por perto, mesmo porque os meninos também não estariam ali naquele murinho.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PEDRAS



- Cara, acharam a mulher.

- Nossa! Graças a Deus uma notícia boa! Quem é a fulana, afinal?

- Não faço idéia. O caso é que recebi uma intimação.

- Intimação? Eles estão acusando você de alguma coisa? Mas ela estava perto, não estava? Viu que não foi você!

- Agora está dizendo outra coisa. Vou ter que arranjar advogado rapidinho.

- Mas você não matou ninguém! E ela está voltando do coma, não está?

- Sim, não matei. Mas ela ainda não está em condições de dar qualquer depoimento. Eu fui lá.

- Você o que?!

- Eu fui lá. Fui lá ver como ela estava. Falei com os médicos. Ela está voltando aos poucos. Vai ficar bem, mas não tem previsão de quando.

- Que droga... Podia voltar logo e tirar você dessa. Quem é ela, afinal? O que ela faz?

- Segundo o médico, é estrangeira. Trabalha com pedras preciosas. Compra as pedras aqui, baratinho, e remete ao exterior com preço lá nas alturas.

- Hum... Ao que parece, dinheiro é um bom motivo para se matar.

- Ei!

- Não estou dizendo que você faria isso!

- Tá.

- Mesmo porque, nunca vi cara mais sem grana que você. Aliás, não me lembro de você ter pago uma conta de nossas cervejas! Cara, você é muito pão-duro!

- Falta de oportunidade, mano...

- Então, 'bora, que estou afim de uma cerveja. Vamos?

- 'Bora.
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Foto tirada deste site. Gente, eu fiquei encantada! Para quem gosta de jóias, pedras brasileiras, semipreciosas, dá uma passada lá. Muito lindo!