
Ela andava pelas ruas. Catava as latas de alumínio, os plásticos, material reciclável para vender e colocar alguma coisa de comer na mesa à noite e no café da manhã para seus filhos.
Não se preocupava com o almoço. As crianças almoçavam na escola, graças a Deus! Ela achava mesmo que precisava de fazer um regimezinho para perder um pouco de peso. Mas, por menos que comesse aquela barriga sempre lhe dizia que estava comendo demais. Então resolveu ignorar esses sinais e vivia feliz com a sua gordurinha dos tantos salgadinhos que achava pelos caminhos.
Agora, quando passava pelas ruas, todas enfeitadas por causa do Natal e Ano Novo, o seu coração se aquecia de alegria.
Tinha gente que ficava com pena dela, coitada, pobre, que mal tinha o que comer, nem sapato ou roupa nova e sem poder dar presentes novos para os filhos.
Tá... até que gostaria de ter tudo isso, ter o prazer de ver a alegria estampada nos olhos dos filhos ao receber um presente de Natal que eles realmente queriam receber, e não aquelas bolas e bonecas de plástico vagabundo de todo ano. Ou então colocar uma mesa cheia de coisas deliciosas para a família comer. Ou chamar toda a família para passar os feriados em sua casa. Sim, tudo isso gostaria, sim.
Mas existia uma coisa que gostava mais do que tudo isso. Uma coisa que fazia todos os anos, quase como um cumprimento de uma promessa. E levava os filhos juntos.
Na noite de Natal, quando todos estavam em suas casas comemorando, ela e os filhos saíam de seu barraco, hoje quase uma casa de tijolos, e iam para a Marginal Tietê. Sempre a pé.
Nem era tão longe. As crianças iam rindo , correndo na frente, brincando. De certa forma tinha conseguido ensiná-las reconhecer o que era bom.
Então, chegavam lá. Debaixo daquela ponte. Ainda hoje via não só sinais de sua passagem por ali, mas via pessoas que, como ela, se ajeitavam com seus trapos se protegendo da friagem da madrugada.
Os seus filhos, naquela algazarra de crianças felizes, acordavam aquelas pessoas, já tontas de sono ou da bebida. Zangadas, algumas até xingavam. Mas ela nunca se importou com isso – entendia. Era quando eles percebiam que alguém tinha se lembrado deles.
Naquele seu carrinho, onde todos os dias carregava os lixos recicláveis, levava sopa, pão torrado, e vez ou outra até conseguiu levar frango desfiado em sanduíches. As crianças adoravam aquela festa tão diferente. De gente estranha sendo surpreendida, como crianças quando Papai Noel aparece com seus presentes pedidos.
Todos os anos, depois que saiu dali, quando seu marido morreu atropelado porque havia bebido demais deixando-a com aquelas três crianças, vinha novamente ali e nunca encontrou as mesmas pessoas, como se fosse um ponto de passagem.
Algumas amigas diziam para ela nunca voltar para lá, porque era um passado ruim e que deveria esquecer. Mas não ela.
Para ela, passado é parte do que é o presente. E o presente de Natal dela, para si mesma, era rever o passado, para ser melhor o seu futuro e o futuro de seus filhos.
Agora, enquanto prepara a sopa de Natal no caldeirão que conseguiu emprestado do bar da Maria, lembra que ainda tem que conseguir o pão velho para fazer as torradas.
- Vizinha! – diz uma mulher, já entrando na casa-barraco – Este ano vou eu e meu filho com vocês. Não quero passar sozinha o Natal. Quem sabe a minha vida melhora, como a sua.
- Ficou sabendo? – diz ela, sorrindo.
- Fiquei. Sair das ruas é bom demais! Ter carteira assinada melhor ainda!
- Deus é Pai! – diz ela experimentando o sal.
- Eu vou levar sanduíche de carne. – avisou a vizinha enquanto saía.
- Deus é Pai...
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Foto tirada daqui, um blog social, prá lá de interessante! Aparentemente parado, mas que deveria dar continuidade.
Aos meus leitores, um Feliz Natal, um Ano Novo cheio de novidades, conquistas, curiosidades, novas metas. Que o amor não seja uma palavra simplesmente, mas um sentimento que crie raízes. Que o realizar-se não seja somente uma meta de vida mas um desdobramento de uma vida plena. Que a plenitude não esteja em possuir tudo o que sempre quis, mas em dar-se em tudo que pode.
Um grande beijo a todos e até o ano que vem!
Férias!!!! :)



